Apagão

Que atraso
Os que lamentam a solidão
Que sufoco
Os que suplicam multidão
Que vazio
Os vasos secos pelo jardim, 
Sem sementes, sem grão.
É admirável a fome d'um cão
Abandonado 
Jogado no chão
Dia-a-dia
Sem dizer não.

Que desastre
Que desgaste
Desistir a vida.

Que maldade
Malandragem
Que ausência de bondade.

Que atraso
Os que lamentam a solidão
Não sabem que são todos Eles
Um por um, a multidão?
Não sirvo para adultos. Sempre escolhi contos-de-fadas, caixinhas de música com bailarina. Vou crescendo pra criança.
Tudo é um rasgo
De nascença

Sê-lo senão isto
Um signo qualquer


Um arraso.

Maldito
Como se já não me bastasse o Sol 
Tenho um ascendente
Que goza do outro lado
Que me faz avesso.

canga

o vento
confundindo-lhes os fios
dos cabelos, os cachos
os olhos
atentos
o sorrir dos lábios
os dentes
o rangir
o amor
sedento, urgente.
agora quando te esquecer é
nunca
porque fica o cheiro
que não finda, nem tampouco
ameniza
o querer de ter-te ainda
que de passagem
pelo corpo
no arrepio do pêlo
na saliva
num fechar de olhos
e recordar

dos diálogos

- mamãe.
- oi.
- o que Senhora acha dos dias de chuva?
- filha, são necessários.
- por que?
- como as plantas, as flores, meu amor, precisamos também ser regadas. 
- mas mamãe...
- oi...
- e sobre andar na rua nos dias de chuva?
- frio.
- frio?
- sim.
- não, mamãe. andar nas ruas nos dias de chuva é como andar sobre o mar.

dos diálogos


- Mamãe, a senhora molha a planta por que ela está com sede?
- Sim, Pequena.
- Mas mamãe, não tem uma medida?
- Medida?
- É, mamãe, medida.
- Para o quê, meu amor?
- O muito me enche. Mas seu amor me transborda, até me protege. Dele eu gosto muito! Você me enche, mamãe?
- Eu te encho sim, minha filha.

.

o amor/ o que é/ senão um gesto mudo?

Quando quebrar não é suficiente.

A vida me causa espasmos
E eu permaneço ao chão
Um caco que não quer adentrar - e não vai! 

Uma ferida aberta, que jorra
Que glorifica o prazer de
Ainda suspirar - e sorrio! 

A vida me intensifica
E sobretudo, 
Acredito e cicatrizo - continuo!

Lambrusco

o vinho foi-se
e eu vim
eu vim
eu finco
findo a tarde
na avidez vespertina
de flor-ir!

.

 a saudade corre feito rio: deságua, deságua!
e eu fito a lembrança,
e eu rio, eu sambo,
canto, resguardo a raiz
na ponta da língua!