Nas Curvas de Aracaju

Naquela fotografia
Vi tanta coisa indo
E só você vindo
A sorrir flores
Meio ao caminho
Coberto de amores.

E eu ria de nervoso
Do que me dispunha
Diante às curvas
Inundadas de mistérios.

Eu ficava.
Eu na verdade me deixava
E te via chegar.

fragmento

Achava legal a superficialidade porque a comparava como as bordas das coisas, como as cascas das frutas, onde por exemplo, fica concentrada a essência do sabor. Depois, aprofundar qualquer coisa que fosse, era preciso coragem. Nem todo mundo está disposto a espinhar-se. Os dias soltam venenos. Os dias superam. Amanhã o céu será mais azul, e mataremos a sede no suor que escorre sal-ga-do!

do contato




I

a grama
me faz
cosquinha nos pés.

II

eu caminho
pelas esquinas
de árvores.

III

volta e meia
uma flor
entristecida.

IV

o canto
dos pássaros
acaba em sol.

.

Ofereceram-me o mar, certa vez
E eu preferi o oceano
Este que me instiga a alma
E derrama o ventre. 

Eu quero muito
E quero sê-la inteira
Acarinhar.

trans.pire

Despétala-me
E deixa-me como a Lua
:nua.

.

é das mãos suarem, se te recordo
é do corpo falar, se te decoro
é do olhos brilharem, se te avisto
é da alma cantar, se te amo.
o inverno exposto no meu corpo
                                         [externo]
revela o calor de você
                        [interno]
e arrepio
arrepio.

...

Ecos
Os passos
Nos trilhos
Do bonde
E nem é verão
Para que o Sol
Te beije a cara
Imunda de tanto
Lambuzar amor

E tem ainda
As folhas
Secas do outono
Passado
Sobreviventes
Decidindo Vida
Na primavera
Que daqui alguns goles
De botão
Te encobertará

Sem contar o líquido inverno
Que tivera 'inda agora
Escancarando o silêncio
Arregalando os olhos
E aquecendo SOUL
Esta, que te dedico e dou!

há-gosto

uivam os ventos
instigando Leoa em mim
porque nunca fui Loba 
nem tampouco coisa nenhuma
senão Mulher
fértil
antes Estrela 
coberta de afeto

diz-cu-te

discuto um beijo
que não dei
e uma política intensa
na qual habitaria
inteira
'inda que eu não tenha provado
o gosto
ah o gosto
eu gosto do seu

timbre
como me aguça
o verso
que conversa
com esse seu
mistério de não
revelar nada
e de dizer tudo
...

Dilacera, O Pó.


Tudo o que eu tenho:
Uma casa empoeirada
Para escrever seu nome
em "tudos" que toco.

Dindi

Não me satisfaz
Rir um desespero
Que finda em rizzi.

Eu Só Tenho Um Pedido

Querida, deixe-me aqui
Emudecido, quase morto
De tanto sorrir do teu gozo.

Do Que Um Fraudulento É Capaz

Gosto quando me despertas
E me fazes trepar em versos
Acabar em poemas.

Quando A Janela É Uma Barraca Toda Aberta

Os passos d'um nômade
Apagando luas
Acendendo sóis

.

o contrário sobe
e você cai
abismo.

Derretendo Santo Antônio

O tempo de uma vela
                          queimar
É o tempo que amar-te-ei!

Até A Próxima

o tamanho do meu amor
o escândalo da minha coragem
se eu passo?
atravesso
se eu fico?
já nem ligo
se eu quero?
já vou indo.

Breve Toque Insaciável.

A Paulista me dilacera
Em tempos de Trianon.

Multidão e uma Avenida
                                 só!
Juntando estilhaços
Restos de vazios
Ninguém arrisca se encarar. 

Cheio, quer estourar
                   o amor.
A paixão,
Coisa mais violenta
'inda sangra doce
Mas finda a fotografia
                   dos olhos.
Perco o gosto.

Se não tem coragem, nem ouse.



Confesso:
Quero apenas um copo
- Não! Não precisa enchê-lo
Depois transborda
A boca, o externo
E alimenta o que cá dentro
É breve.

Assassinei o poema



Um odor sua poesia
Na cozinha
Fria na pia
Morta.

hámar

transparência plena
dos seus olhos
:altos-mares
intimidade
amor de qualquer hora
mansa, quieta
dias de ressaca.

dos quases

querência mora
no beijo de canto
de boca
da nuca
o sopro
quente.
des-graça-da!
'inda me arrepia
e brinca de braile.

o que nunca adormece

sei lá, camarada
até deixo o vinho de lado
esqueço, deixo queimar
a-l-o-n-e o varejo
mas a ideologia da minha poesia
essa fica
ainda que falsa.

pra já

queria poesia quente:
fiz um cozido
e a fiz lamber os beiços
de amor.

.


Ela queria ser seu casaco inúmeras vezes. Não! Não falo deste grudado no seu corpo que insiste substituir a quentura da minha alma, aquecendo sua meia-estação. Ela se refere ao que você leva nas mãos em caminhadas noturnas. Ela fala deste, deste que te faz decorar cheiros.

#fragmento 

da manhã.


voava como se dançava
levitando
pairando em nuvens
coberta de azul.

.

Vovó queria como guia
Os olhos cor-de-céu de Pedrinho
Mas eu, Sabiá, 
Só via o mar de Tiê.

Naveguei,
Fui fundo
Me afoguei.

Acumulou
Silenciei.

Sobrou ar.

.

(...) a multidão coberta de solidão. Pessoas sentem medo de expressar-se... Aproximam-se, mas partem sem se mostrarem. Há tumulto, desespero, correria por todas as esquinas... Veja ali atrás, olhe aquela moça tocando violino, sinta o amor na melodia e a tristeza suavemente envolvendo no movimento do seu braço que cria o som. Agora, continue a andar, veja aquela floricultura, olhe o lamento nos olhos daquela senhora por quase não ter mais em seu comércio apaixonados pelo romantismo. Rosas ficam meses dentro de freezers para ser conservadas e, quando retiradas e entregues a alguém, murcham, morrem, envelhecem nas garrafas por não terem sido oferecidas pelo derradeiro amor. 
Pare aí onde você está agora, é um café. O que você vê? Uma pequena mesa redonda com toalha de renda e duas cadeiras de madeira, uma é ocupada por um homem, e a outra sequer sua sombra o faz companhia. Algumas pessoas só tem numa mão um cigarro, e n'outra um copo de conhaque. O frio ameaça e já sinto a desfolhagem do outono. 

#projeto


que caia o outono
e desfolhe pássaro
voe amor.
#

O que está por vir: prévia de um projeto meu e de Capima.

Poemas: Ana Pérola Pacheco
Ilustrações: Caroline Pires
 

filtro dos sonhos

como num filtro
só fica aquilo, aquele
que derradeira.mente
sonha
e quer sê-lo
o sonho
de pequenino
fez-se gigante
infinito.